terça-feira, 28 de junho de 2016

O MISTÉRIO DA CAPELA

Para todos que visitam o bairro rural de Barão Ataliba Nogueira, distrito de Itapira, logo atrás da antiga estação da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, pode-se encontrar, atualmente em meio a casas novas, uma antiga Capelinha... Para quem se aproxima ainda mais, por curiosidade... Se depara com lindas inscrições, preservadas por 84 anos. Assinaturas de soldados paulistas que, passando por ali, escreveram seus nomes e recados nas paredes de gesso da pequena capela. Mas o que poucas pessoas sabem, é o real e tenebroso motivo da construção daquele singelo prédio religioso, segundo depoimento do senhor Osmar Pereira da Silva, ao pesquisador Sérgio Freitas.


   Segundo informações encontradas em pesquisas de memorialistas e pesquisadores Itapirenses, montamos aqui um pequeno artigo sobre a origem da Capelinha do Barão, marco tão importante para a história dos combates em nosso setor durante a Revolução de 1932. Segundo nos conta Sérgio Freitas, a história contada pelo seu Osmar revela aspectos importantíssimos, no sentido de a compararmos com outra história publicada pela pesquisadora Odete Coppos em seu "O Livro da Festa do 13", e "Das Congadas de Itapira". Osmar contou em seu depoimento, ao ser indagado sobre a origem daquela capela: que a mesma fora erigida pelos moradores do local como preito a um crime ocorrido naquelas redondezas por volta de 1924 em plena Revolução. Naquele local foi enterrado um negro de nome desconhecido, que foi morto pela polícia após a ocorrência do crime ora citado.
Para entender um pouco o contexto deste crime, apresentamos as informações abaixo:
Habitavam na antiga Barão Ataliba Nogueira de então as famílias tradicionais tais como as famílias dos Pereira da Silva, dos Bredas, dos Lovo, dos Rosário etc. Como tipicamente acontece num lugarejo pequeno, todos se conheciam e apesar das boas amizades sempre existe algum melindre que acaba em desentendimentos, inimizades e até em vingança. Foi o que ocorreu com o sr. Natale Breda, bisavô materno do Osmar. Habitava por aquelas bandas um sr. de nome David Bocon que após ter sofrido um acidente e batido com a cabeça (em decorrência do contumaz vício alcoólico), ficou meio destrambelhado, segundo Osmar, e vivia frequentemente criando conflitos, brigas e arruaças nos bares da localidade. Numa dessas vezes, acabou sendo trancafiado atrás das grades da Cadeia Municipal em Itapira, por solicitação dos próprios moradores dali. Corria o ano de 1924 e com a chegada da revolução, os novos momentos políticos-revolucionários vieram favorecer os presos. Uma ordem do tenente Cabanas, motivado pela necessidade de arregimentar soldados para as suas forças de combate, libertou todos os que se encontrassem presos. David Bocon foi beneficiado também através desse informal decreto.
Cabanas tomou a cidade de Itapira e, descendo a Rua do Amparo (atual Rua da Penha), cerca de 200 homens desfilaram armados, tendo havido ali algumas escaramuças e muitos tiros. Foi nessa época, segundo Freitas, que o cel. Francisco Cintra, atuou energicamente e unido com o povo promoveu decisões de força e enfrentamento desse episódio bélico. Triunfaram os legalistas contra o movimento "tenentista" e revolucionário. Já no paço municipal o cel. seria destacado por essa enérgica atuação através da fala inflamada do general Alcides Amaral. Após o cerco e a tomada do prédio da Cadeia Municipal, Cabanas solta todos os presos, onde se incluía o David Bocon e também um outro preso de cor negra cujo nome permaneceu incógnito ou desconhecido desde então e que também pelas inúmeras ocorrências policiais vivia as voltas com a lei. 

Soldados de Cabanas em propriedade de Augusto Fracarolli, no bairro dos Forões, em Itapira. 1924.
Acervo Paulino Santiago.
 Segundo o sr. Osmar, quando soltos, David Bocon e o negro fugitivo, ambos após terem sido libertos, vendo-se livres, rumaram para Barão Ataliba Nogueira e ali adentrando, pelo meio do mato, puseram em prática o plano de David Bocon: vingança, ou seja, assassinar a Natale Breda, quem David julgava ter sido o mandante de sua prisão. Foi assim que na porta de um barzinho do referido bairro de Barão, culminou por desferir várias facadas em seu desafeto pondo-lhe fim a vida. Após o que, em fuga célere junto com seu comparsa negro, adentraram de retorno à mata circundante. A perseguição policial; o cerco e o espocar de alguns tiros puseram fim a vida do comparsa negro sem contudo até hoje terem encontrado o David Bocon. Esse negro que apenas acompanhava David acabou levando a pior. Esse "livrou-se", pelo menos é o que se sabe, do cerco e da turba armada que lhe perseguiu e nunca mais foi encontrado, segundo Freitas.
Sérgio Freitas ainda compara com outra versão e que foi publicada por Odete Coppos no seu livro já citado acima. Textualmente e conforme o título abaixo assim se refere Odete quando cita um personagem negro à página 60 da referida obra. Utiliza também nessa citação o texto da lavra do nosso famoso e querido articulista João do Norte. E prosseguem ambos:
"OUTRO FILHO DO CHICO PITADA" - "O João do Norte diz que o Anterão, foi filho do Chico Pitada; que era um negro elegante, de boa altura, e vestia-se 'caprichadamente'; mas que tinha seus deslizes... certas atrapalhadas... indolente e outras 'cositas' mais. Um dia o Anterão desapareceu, lá por volta de 1924, no quadriênio do Governo Artur Bernardes. Muita gente se lembra da revolução de 1924, do consumismo de pessoas, e foi num destes que o nosso conterrâneo Anterão desapareceu..."
Agora vejamos: Em 1924, um negro é morto nas matas de Barão Ataliba Nogueira e praticamente inocente do crime cometido, é enterrado a margem da estrada velha logo a entrada da Vila. Logo depois o povo constrói uma capela e passam a cultuar a lembrança do negro ali enterrado.
Por outro lado a Odete Coppos, citando o João do Norte, textualmente relata uma história e que comparativamente tem muito a ver com a relatada pelo Osmar.

Foto de Julho\Agosto de 1932.
 Podemos concluir sem muito medo de errar que é bem provável que o negro morto pelos policiais naquele ano revolucionário de 1924 tenha sido o Anterão, filho do Chico Pitada, já tão sobejamente conhecido de nós, figura esta que angariava fundos para a construção da antiga capelinha de São Benedito, tendo como característica marcante o seu famoso Oratório de Capelinha.


FONTES: Cidade de Itapira, Tribuna de Itapira, Odete Coppos, Sérgio Freitas, Jácomo Mandatto, João do Norte, Álbum de Itapira.