segunda-feira, 16 de março de 2015

AUX ARMES, CITOYENS! (UM CONTO AMBIENTADO EM 1932)


- Acorda menino! Vais perder a hora e chegar atrasado! Gritou lá do quintal, com uma cestinha de ovos na mão esquerda e um maço de couve na outra, a mãe dona Crisálida.
Era uma quarta-feira, 22 de julho. Um dia nublado e frio no inverno paulistano, daqueles que ninguém deixa o calor do lar sem um cachecol e um casaco mais quente. Virgílio deu uma resmungada, cobriu e descobriu a cabeça, coçou a ponta do nariz e levantou-se de um pulo da cama, berrando:
- Rosinaaaa! E a farda? A faaaarda?
A irmã, surgindo da porta da cozinha com um avental xadrez, responde:
- A Setembrina ficou de trazer ontem, me deixa olhar no quarto de mamãe.
De fato, a farda, bela, engalanada, novinha em folha no seu cáqui marcial, estava estendida sobre a cama. Ao lado dela, a cobertura de cabeça que fazia conjunto com o vestuário de um voluntário do Batalhão 9 de julho, inscrito e alistado na leva de moços que desejavam dar seu contributo à causa paulista que, segundo se dizia, era a causa do Brasil.
Quarenta minutos depois, a buzina soou na rua com insistência. Era o pai, doutor Antenor, advogado com boa clientela, que aguardava ao volante do automóvel Chrysler 1931, para levar o filho à estação da Luz.
Dona Crisálida, trajando luto há dez anos pela morte do pai, usava um chapéu recém comprado no Mappin Stores, combinando com o negrume do vestido. O embarque do filho, um voluntário paulista para as “trincheiras da lei” era para ela o orgulho de sua vida. Imaginava o filho um herói, o pai, em suas reflexões cristãs, via-o como um mártir. A irmã, bem, a irmã aproveitava para flertar com Rosendo, um vizinho da rua de cima que também se alistara, mas em outro batalhão, o Arquidiocesano. Rosina no dia da partida dele prendeu em sua farda uma medalha de São José para guiar e guardar seus passos de soldado. O moço prometeu voltar para se casar com ela.
O embarque de Virgílio seria exatamente às dez horas da manhã com o seu batalhão perfilado na gare da Luz desde as nove e meia. O Secretário de Justiça, Dr. Waldemar Ferreira, representando Sua Excelência o governador Pedro de Toledo, dirigiu algumas breves palavras de encorajamento aos alistados e pediu palmas aos circunstantes, saudando a valentia e o brio dos moços de Piratininga que partiriam num comboio rumo à Campinas e de lá, para alguma trincheira entre São Paulo e Minas.
- Preparar para o embarque! Gritou um sargento rechonchudo, conhecido pela alcunha de Mata-Galos, por conta de seu vício nas rinhas galináceas.
Os moços se despedem de seus parentes entre choros, risos nervosos ou gracejos.
- Filho - diz doutor Antenor, lacrimoso - não vá se expor demais às balas da canalha getulista. Manda bala! Manda bala! Concluiu com um leve tapa no braço esquerdo do filho.
E a mãe, enlutada, mão pousada sobre o peito, entre um soluço e outro, diz:
- Que Jesus te acompanhe meu filho! Escreva, manda notícias que eu aqui fico aflita rezando por tua volta. Não deixe de fazer tuas orações antes de dormir.
E dormir, para ela, deveria ser a coisa mais comum numa guerra. É por isso que o Céu é para as mães. Por causa de sua ingenuidade.
O moço nada respondeu, emocionado, contendo o choro de quem nunca saiu de casa para ir embrenhar-se numa guerra que já reputavam vitoriosa. Apenas um aceno positivo com a cabeça e, então, o trem apitou saindo lentamente, carregando os novos soldados, como bois para o matadouro.
Na saída da estação, cumprimentando alguns velhos conhecidos das Arcadas que também mandaram seus rebentos para o front, doutor Antenor, num arroubo patriótico e advocatício, dirigiu-se a um pau d’água que, sentado no meio fio, assistia tudo com uma expressão de inocência e interrogação:
- São Paulo precisa de sua coragem, homem! Aliste-se!
E o pau d’água, banguela e com a cachaça escorrendo pelo canto da boca, responde após um brevíssimo segundo de reflexão etílica:
- São Paulo não é aquele santo que tem uma espada e um livro nas mãos?
- É sim, senhor! Respondeu prontamente o advogado, ao que fora confirmado pelos presentes, um deles, inclusive, padre recém ordenado, vigário do interior que viera para se despedir de um irmão soldado.
O pobre diabo do cachaceiro olhou ao redor, ajeitou a gola puída do paletó encardido e respondeu decididamente:
- Então, se ele for à frente eu vou depois. Não sei usar espada, mas fico segurando o livro dele pra ninguém roubar.
Tombou na calçada com a garrafa da cana quase vazia. Dispersou-se a concentração emudecida.

Rodrigo Ruiz


quarta-feira, 4 de março de 2015

NOVO PROJETO: "SP32|AS CORES DA GUERRA"

Neste projeto inédito, o pesquisador Eric Apolinário, do Núcleo MMDC de Itapira "Cel. Francisco Vieira", uniu-se com com o fotógrafo e ilustrador Paulo Estevão para este trabalho até então inédito referente à Revolução Constitucionalista de 1932. A proposta inicial da dupla, através de pesquisas em acervos, museus e arquivos, é montar uma exposição intitulada: "SP32|AS CORES DA GUERRA". Até o início da exposição, previsto para Julho deste ano, a dupla pretende colorir cerca de 50 fotografias! Que ficarão expostas por um período de três meses em Itapira-SP e depois deverá itinerar para cidades que se interessarem em recebê-la. Este é o primeiro grande projeto do Núcleo MMDC de Itapira "Cel. Francisco Vieira" para o ano de 2015!

Abaixo, vemos um exemplo do trabalho que será exposto em Julho:

Acervo: NMMDCI0047
Legenda: Sargento França (lenço no pescoço); Tenente Rangel (centro); Ricciluca (de terno). Fotografia feita na cidade de Itapira antes da ocupação da cidade feita pelas tropas federais. Provavelmente, nos estúdios fotográficos Santiago.

FOTOGRAFIA TRABALHADA

FOTOGRAFIA ORIGINAL

MAIORES INFORMAÇÕES EM BREVE!
SE VOCÊ POSSUI FOTOGRAFIAS REFERENTES À REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA E QUER QUE ELAS FAÇAM PARTE DESTE PROJETO, FAVOR ENTRAR EM CONTATO!